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Cultura, Literatura

O Boi Velho, de Simões Lopes Neto

Figura pouco reconhecida fora do Rio Grande do Sul – e porque não dizer – desconhecida também de muito gaúchos pouco afeitos à literatura, João Simões Lopes Neto (1865-1916) foi um aristocrata, empresário e escritor pelotense de pouco sucesso nos números e grande sensibilidade nas letras.

Apesar de nascido em família rica (era neto de um visconde), o empresário Simões Lopes Neto era praticamente um Midas ao contrário, um Balzac gaudério – conservadas as devidas proporções. Viu fracassar todas suas empreitadas empresariais, entre as quais um fábrica de vidros, uma destilaria, uma fábrica de cigarros e outros derivados do tabaco, uma processadora de café e uma mineradora de prata.

O escritor Simões Lopes Neto, por outro lado, foi um homem capaz de reunir diversos aspectos da cultura gaudéria, principalmente o linguajar, com sensibilidade inigualável. Para mim, apesar de ter escrito apenas quatro obras e jamais ter recebido em vida o reconhecimento literário que merecia, trata-se de um dos maiores escritores do Rio Grande do Sul.

O conto abaixo foi publicado em 1912 na obra Contos Gauchescos. Desta, outros diversos me aprazem, mas certamente O Boi Velho é o meu favorito.

O BOI VELHO

Cuê-pucha!… é bicho mau, o homem!

Conte vancê as maldades que nós fazemos e diga se não é mesmo!… Olhe, nunca me esqueço dum caso que vi e que me ficou cá na lembrança, e ficará té eu morrer… como unheiro em lombo de matungo de mulher.

Foi na estância dos Lagoões, duma gente Silva, uns Silvas mui políticos, sempre metidos em eleições e enredos de qualificações de votantes.

A estância era como aqui e o arroio como a umas dez quadras; lá era o banho da família. Fazia uma ponta, tinha um sarandizal e logo era uma volta forte, como uma meia-lua, onde as areias se amontoavam formando um baixo: o perau era do lado de lá. O mato aí parecia plantado de propósito: era quase que pura guabiroba e pitanga, araçá e guabiju; no tempo, o chão coalhava-se de fruta: era um regalo!

Já vê… o banheiro não era longe, podia-se bem ir lá de a pé, mas a família ia sempre de carretão, puxado a bois, uma junta, mui mansos, governados de regeira por uma das senhoras-donas e tocados com uma rama por qualquer das crianças.

Eram dois pais da paciência, os dois bois. Um se chamava Dourado, era baio; o outro, Cabiúna, era preto, com a orelha do lado de laçar, branca, e uma risca na papada.

Estavam tão mestres naquele piquete, que, quando a família, de manhãzita, depois da jacuba de leite, pegava a aprontar-se, que a criançada pulava para o terreiro ainda mastigando um naco de pão e as crioulas apareciam com as toalhas e por fim as senhoras-donas, quando se gritava pelo carretão, já os bois, havia muito tempo que estavam encostados no cabeçalho, remoendo muito sossegados, esperando que qualquer peão os ajoujasse.

Assim correram os anos, sempre nesse mesmo serviço.

Quando entrava o inverno eles eram soltos para o campo, e ganhavam num rincão mui abrigado, que havia por detrás das casas. Às vezes, um que outro dia de sol mais quente, eles apareciam ali por perto, como indagando se havia calor bastante para a gente banhar-se. E mal que os miúdos davam com eles, saíam a correr e a gritar, numa algazarra de festa para os bichos.

— Olha o Dourado! Olha o Cabiúna! Oôch!… oôch!…

E algum daqueles traquinas sempre desencovava uma espiga de milho, um pedaço de abóbora, que os bois tomavam, arreganhando a beiçola lustrosa de baba, e punham-se a mascar, mui pachorrentos, ali à vista da gurizada risonha.

Pois veja vancê… Com o andar do tempo aquelas crianças se tornaram moças e homens feitos, foram-se casando e tendo família, e como quera, pode-se dizer que houve sempre senhoras-donas e gente miúda para os bois velhos levarem ao banho do arroio, no carretão.

Um dia, no fim do verão, o Dourado amanheceu morto, mui inchado e duro: tinha sido picado de cobra.

Ficou pois solito, o Cabiúna; como era mui companheiro do outro, ali por perto dele andou uns dias pastando, deitando-se, remoendo. Às vezes esticava a cabeça para o morto e soltava um mugido… Cá pra mim o boi velho — uê! tinha caraca grossa nas aspas! — o boi velho berrava de saudades do companheiro e chamava-o, como no outro tempo, para pastarem juntos, para beberem juntos, para juntos puxarem o carretão…

— Que vancê pensa!… os animais se entendem… eles trocam língua!…

Quando o Cabiúna se chegava mui perto do outro e farejava o cheiro mim, os urubus abriam-se, num trotão, lambuzados de sangue podre, às vezes meio engasgados, vomitando pedaços de carniça…

Bichos malditos, estes encarvoados!…

Pois, como ficou solito o Cabiúna, tiveram que ver outra junta para o carretão e o boi velho por ali foi ficando.

Porém começou a emagrecer… e tal e qual como uma pessoa penarosa, que gosta de estar sozinha, assim o carreteiro ganhou o mato, quem sabe, de penaroso. também…

Um dia de sol quente ele apareceu no terreiro.

Foi um alvoroto da miuçalha.

— Olha o Cabiúna! O Cabiúna! Oôch! Cabiúna! oôch!…

E vieram à porta as senhoras-donas, já casadas e mães de filhos, e que quando eram crianças tantas vezes foram levadas pelo Cabiúna; vieram os moços, já homens, e todos disseram:

— Olha o Cabiúna! Oôch! Oôch!…

Então, um notou a magreza do boi; outro achou que sim; outro disse que ele não agüentava o primeiro minuano de maio; e conversa vai, conversa vem, o primeiro, que era mui golpeado, achou que era melhor matar-se aquele boi, que tinha caraca grossa nas aspas, que não engordava mais e que iria morrer atolado no fundo dalguma sanga e… lá se ia então um prejuízo certo, no couro perdido…

E já gritaram a um peão, que trouxesse o laço; e veio. A mão no mais o sujeito passou uma volta de meiacara; o boi cabresteou, como um cachorro…

Pertinho estava o carretão, antigão, já meio desconjuntado, com o cabeçalho no ar, descansando sobre o muchacho.

O peão puxou da faca e dum golpe enterrou-a até o cabo, no sangradouro do boi manso; quando retirou a mão, já veio nela a golfada espumenta do sangue do coração…

Houve um silenciozito em toda aquela gente.

O boi velho sentindo-se ferido, doendo o talho, quem sabe se entendeu que aquilo seria um castigo, algum pregaço de picana, mal dado, por não estar ainda arrumado… — pois vancê creia! —: soprando o sangue em borbotões, já meio roncando na respiração, meio cambaleando o boi velho deu uns passos mais, encostou o corpo ao comprido no cabeçalho do carretão, e meteu a cabeça, certinho, no lugar da canga, entre os dois canzis… e ficou arrumado, esperando que o peão fechasse a brocha e lhe passasse a regeira na orelha branca…

E ajoelhou… e caiu… e morreu…

Os cuscos pegaram a lamber o sangue, por cima dos capins… um alçou a perna e verteu em cima… e enquanto o peão chairava a faca para carnear, um gurizinho, gordote, claro, de cabelos cacheados, que estava comendo uma munhata, chegou-se para o boi morto e meteu-lhe a fatia na boca, batia-lhe na aspa e dizia-lhe na sua língua de trapos:

— Tome, tabiúna! Nó té… Nô fá bila, tabiúna!…

E ria-se o inocente, para os grandes, que estavam por ali, calados, os diabos, cá pra mim, com remorsos por aquela judiaria com o boi velho, que os havia carregado a todos, tantas vezes, para a alegria do banho e das guabirobas, dos araçás, das pitangas, dos guabijus!…

— Veja vancê, que desgraçados; tão ricos… e por um mixe couro do boi velho!…

— Cuê-pucha!…é mesmo bicho mau, o homem!

Fontes bibliográficas:

CONTOS GAUCHESCOS E LENDAS DO SUL. Disponível em: <http://pelotas.ufpel.edu.br/ebooks/contosgauchescos.pdf>. Acesso em: 15 de agosto de 2012.

WIKIPÉDIA – JOÃO SIMÕES LOPES NETO. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o_Sim%C3%B5es_Lopes_Neto>. Acesso em: 15 de agosto de 2012.

Sobre Rafa Trotamundos

Apenas um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior...

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