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CACD, História

O Concerto Europeu e sua crise (1815-1918): os sistemas de Bismarck, as Alianças e a diplomacia secreta

Bismarck e a Unificação da Alemanha

Uma semana depois de se ter iniciado em Viena, o movimento revolucionário de 1848 espalhou-se aos estados alemães. Desde 1815 esses estados tinham formado, juntamente com a Áustria-Hungria, os trinta e oito membros da Confederação Germânica. Os vários príncipes mantinham ciosamente a sua semi-independência, mas entre o povo difundia-se cada vez mais o desejo da unificação num Estado nacional. Os homens de negócio batiam-se por esse ideal, na convicção de que ele faria florescer o comércio. Os nacionalistas exigiam-no, alegando a unidade de cultura e de raça. Em consequência, a revolução alemã de 1848 teve o duplo caráter de uma cruzada em prol de um governo mais liberal e de um movimento de unificação. A princípio, ambos esses objetivos pareceram apresentar grandes promessas de êxito. Durante o mês de março de 1848 foram arrancadas concessões a quase todos os governantes alemães — em alguns casos, promessas de constituições; em outros, ministérios liberais, ou ainda a liberdade de palavra da imprensa. Em maio do mesmo ano, liberais e nacionalistas convocaram uma grande convenção nacional em Frankfurt a fim de redigir uma constituição para uma Alemanha unificada. Foi essa a célebre Assembléia de Frankfurt, composta de altivos delegados de todos os estados da Confederação. A Assembléia conseguiu aprovar uma declaração de direitos, mas logo caiu num imbróglio sem solução a respeito de outros assuntos constitucionais. Quando a maioria dos delegados concordou em fazer da nova Alemanha uma monarquia constitucional, os republicanos entraram em dissidência. Houve também acaloradas discussões sobre a conveniência de incluir ou não a Áustria-Hungria-Hungria e sobre o problema de quem deveria reinar. Ao ser decidido que somente as províncias alemãs da Áustria-Hungria seriam admitidas, o governo austríaco ordenou aos seus delegados que regressassem. Esperando ainda estabelecer uma união em escala menos ambiciosa, a Assembléia ofereceu a coroa ao rei Frederico Guilherme IV da Prússia, mas o indeciso monarca recusou com medo de se incompatibilizar com a Áustria-Hungria-Hungria e também porque relutava em ter relações com uma convenção revolucionária. A Assembléia de Frankfurt dispersou-se pouco depois, desalentada, sem ter absolutamente nada para apresentar como resultado dos seus esforços. A maioria das reformas que tinham sido conseguidas sem a sua intervenção também foi evaporando-se aos poucos, e milhares de revolucionários abandonaram o país, indo buscar refúgio nos Estados Unidos.

Caricatura de Otto von Bismarck, o Chanceler de Ferro

Estava reservado ao firme realismo de Bismarck levar a cabo a unificação da Alemanha. Otto von Bismarck (1815-98) pertencia pelo nascimento à classe dos junkers ou nobres rurais, que durante séculos fornecera ao estado prussiano o grosso dos seus burocratas e das altas patentes do seu exército. Durante algum tempo a natureza indomável de Bismarck desafogou-se no liberalismo, mas o seu casamento com a piedosa filha de um aristocrata das vizinhanças veio mudar tudo isso. De rebelde soturno e cínico, converteu-se num valente defensor da religião e num trovejante reacionário em política. Durante o movimento revolucionário de 1848 serviu no parlamento prussiano como fiel sustentáculo da monarquia de direito divino. Fez parte de um grupo de aristocratas intransigentes que instaram com o rei da Prússia para que não aceitasse a “coroa vergonhosa” oferecida pela Assembléia de Frankfurt. Mais tarde, Bismarck ajudou a organizar o partido conservador, dedicado a proteger os interesses dos junkers, da igreja oficial e do exército, e a erigir uma Prússia poderosa como núcleo da futura nação alemã. Em 1862, o rei Guilherme I nomeou-o presidente do conselho de ministros da sua adorada Prússia.

Na consolidação dos estados alemães numa nação unida Bismarck observou uma série de fases, com habilidade quase diabólica.

Em primeiro lugar projetou eliminar a Áustria-Hungria da sua posição de hegemonia na Confederação Alemã. Como meio preliminar de alcançar esse objetivo, entrou em disputa com a Dinamarca sobre a posse do Schleswig-Holstein. Essas províncias, habitadas mormente por alemães, estavam em situação anômala. Desde 1815 o Holstein fora incluído na Confederação Germânica, mas ambos os territórios estavam sujeitos à suserania do rei da Dinamarca. Quando, em 1864, um soberano deste país tentou anexá-los, Bismarck convidou a Áustria-Hungria a participar de uma guerra contra a Dinamarca. Seguiu-se uma breve campanha, ao cabo da qual o rei dinamarquês teve de renunciar a todas as suas pretensões sobre o Schleswig-Holstein em favor da Áustria-Hungria e da Prússia. Adveio então a decorrência pela qual Bismarck esperava ansiosamente: uma contenda entre os vencedores em torno da divisão dos despojos. O resultado final foi lançarem-se ambos à guerra em 1866. Sabendo que os Habsburgos teriam o auxílio dos estados alemães meridionais, Bismarck formou uma aliança com a Itália, prometendo recompensá-la, após a vitória, com a cessão de Veneza. O conflito que se seguiu, conhecido como a Guerra das Sete Semanas, terminou pele fácil triunfo da Prússia. A Áustria-Hungria foi forçada a abandonar as suas reivindicações sobre o Schleswig-Holstein, a ceder Veneza à Itália e a consentir na dissolução da Confederação Germânica. Imediatamente após a guerra Bismarck procedeu à união de todos os estados alemães situados ao norte do rio Meno numa Confederação Germânica do Norte. A constituição dessa união, que o grande ministro se jactava de ter redigido numa só noite, estabelecia que o rei da Prússia seria o presidente hereditário da Confederação e que haveria uma câmara alta representando os governos de cada estado confederado e uma câmara baixa eleita por sufrágio universal masculino.

O passo final na consecução da unidade alemã foi a Guerra Franco-Prussiana (ou Franco-Germânica). Já conhecemos o papel desempenhado por Napoleão III ao provocar uma crise com a Prússia sobre a questão da sucessão espanhola. A atitude de Bismarck, porém, não foi menos provocadora. Sabia que uma guerra com a França seria o melhor meio de estimular um nacionalismo alemão na Baviera, no Württemberg e nos demais estados ao sul do Meno. Conseqüentemente, quando foi informado pelo rei Guilherme I, em Eras, de que fora repelida a exigência francesa no sentido de serem os Hohenzollern para sempre excluídos do trono espanhol, achou que era chegado o momento de agir. Decidiu tornar público o telegrama recebido de Ems de maneira a fazer supor que o rei Guilherme insultara o embaixador francês (falsificação do Despacho de Ems). Não tardou a concretizar-se a sua predição de que isso teria o efeito de “um pano vermelho sacudido diante do touro gaulês“. Quando foi recebida na França a notícia truncada do que sucedera em Ems, um clamor de ira percorreu imediatamente toda a nação. Em 15 de julho de 1870 os ministros de Napoleão solicitaram ao corpo legislativo que aprovasse a declaração de guerra; a aprovação foi dada com apenas dez votos contrários. Nem bem havia começado a luta, os estados da Alemanha Meridional alinharam-se ao lado da Prússia, na crença de que estava sendo vítima de uma agressão. Tal foi o início de uma guerra que devia ter efeitos tremendos sobre a história subseqüente da Europa. Desde o princípio os prussianos levaram vantagem. A eficiência disciplinada da sua máquina militar ressaltou em franco contraste com a desastrada inércia dos franceses. Os abastecimentos das tropas de Napoleão eram de uma lamentável ineficiência, e um dos seus generais não conseguiu, durante alguns dias, localizar o exército que devia comandar. O resultado poderia ser previsto desde o começo. Após a captura de Napoleão III em Sedan, no mês de setembro, e a tomada de Paris quatro meses mais tarde, a guerra foi oficialmente encerrada pelo Tratado de Frankfurt. A França cedeu a maior parte da Alsácia e da Lorena e concordou em pagar uma indenização de um bilhão de dólares.

A Guerra Franco-Prussiana destruiu um império e criou outro. Já vimos que depois de ser Napoleão III aprisionado em Sedan o seu governo foi derrubado em Paris e instaurou-se uma república provisória. Nas terras de além-Reno, a grande explosão de entusiasmo patriótico possibilitou a Bismarck a anexação dos estados meridionais à Confederação Germânica do Norte. Durante o desenrolar da guerra foram negociados tratados, estipulando que toda a Alemanha se uniria num império sob os Hohenzollern. Esses acordos foram oficialmente postos em vigor em magnificente cerimônia celebrada no palácio de Luís XV, em Versalhes, a 18 de janeiro de 1871, ocasião em que Guilherme I da Prússia recebeu o título de imperador da Alemanha (Segundo Reich). Bismarck, então alçado à dignidade de príncipe, tornou-se o primeiro chanceler do império.

Coroação de Guilherme I no Palácio de Versalhes (1871)

Sem receber mais que as modificações indispensáveis, a constituição da Confederação Germânica foi aceita como constituição do novo império. O governo assim criado não tinha senão dois característicos que podiam ser positivamente considerados como democráticos: por um lado, o sufrágio universal masculino nas eleições nacionais e, pelo outro, o parlamento com uma câmara baixa, ou Reichstag, eleita pelo voto popular. A outros respeitos, o sistema se adaptava muito bem ao governo conservador. Ao invés de copiar o sistema de gabinete, o chanceler e os demais ministros eram responsáveis unicamente perante o imperador. Este não era um simples chefe nominal, dispondo ao contrário de extensa autoridade sobre o exército e a marinha, as relações exteriores, a promulgação e a execução das leis. Podia, ademais, declarar a guerra se as costas ou o território do império fossem atacados, e na qualidade de rei da Prússia controlava um terço dos votos no Bundesrat, câmara alta do parlamento imperial.

Não obstante, o império alemão não era uma autocracia completa. Embora o kaiser pudesse influenciar a promulgação das leis, não tinha direito de veto. Todos os tratados que negociasse tinham de ser aprovados pelo Bundesrat e não podia obter dinheiro sem o consentimento do Reichstag. Na verdade, este último órgão estava longe de ser uma simples sociedade de debates, como alegaram muitas vezes os inimigos da Alemanha durante a Primeira Guerra Mundial. Pelo contrário, tinha poderes legislativos virtualmente equivalentes aos do Bundesrat e foi bastante forte para arrancar concessões a diversos chanceleres. Em 1913, o Reichstag por pouco não conseguiu estabelecer o governo de gabinete. Por ocasião de uma disputa com o Chanceler von Bethmann-Hollweg sobre a tirania militar na Alsácia, os membros da câmara baixa votaram uma moção de desconfiança no governo e exigiram que o chanceler renunciasse. Uma resolução de negar autorização de créditos até que Bethmann abandonasse o cargo deixou de ser aprovada por ínfima margem de votos.

Como a república na França, o novo império alemão também teve suas desavenças com a igreja. O movimento anticlerical alemão do século XIX é conhecido como Kulturkampf, ou “luta pela cultura”, iniciada por Bismarck em 1872. Os motivos de Bismarck eram quase que exclusivamente nacionalistas. Não era ele um cético nem Kulturkampf um materialista, mas um fervoroso luterano. Não obstante, percebeu em certas atividades católicas uma ameaça ao poder e à estabilidade do estado que acabava de criar. Desagradava-lhe principalmente o apoio que os padres católicos continuavam a dar ao movimento em prol dos direitos dos estados da Alemanha meridional e às queixas dos alsacianos e poloneses. Alarmou-se, outrossim, com as recentes afirmações da autoridade papal de intervir em assuntos seculares e com a promulgação, em 1870, do dogma da infalibilidade do papa. Além disso, estava ansioso por obter um apoio mais entusiasta da parte dos “nacional-liberais” burgueses no fortalecimento das bases do novo império. Por essas razões resolveu desferir tamanho golpe na influência católica na Alemanha que esta nunca mais pudesse tornar-se um fator de importância na política nacional ou local. Suas armas foram uma série de leis e de decretos promulgados entre 1872 e 1875. Em primeiro lugar, induziu o Reichstag a expulsar todos os jesuítas do país. Em seguida, fez passar no Landstag prussiano as chamadas Leis de Maio, que colocavam os seminários sob o controle do estado e capacitavam o governo a regular a nomeação de bispos e padres. Ninguém podia ser nomeado para qualquer cargo eclesiástico se não fosse cidadão alemão e, ainda assim, somente depois de um exame oficial. Ao mesmo tempo era estabelecida a obrigatoriedade do casamento civil, mesmo que já se tivesse realizado a cerimônia religiosa. Por ocasião da execução dessas medidas foram presos seis dos dez bispos católicos da Prússia e centenas de padres tiveram de abandonar o país.

Embora Bismarck houvesse ganho algumas das batalhas mais importantes da Kulturkampf, acabou perdendo a campanha. Foram diversas as causas desse fracasso. Em primeiro lugar, o chanceler incompatibilizou-se com os seus adeptos progressistas por haver recusado atender-lhes às exigências de responsabilidade para os ministros. Em segundo lugar, o partido católico, ou do Centro, bateu-se tão eficazmente em favor do claro perseguido e adotou um programa econômico tão inteligente que se tornou o partido político mais forte da Alemanha. Nas eleições de 1874, conseguiu quase um quarto das cadeiras do Reichstag. Em terceiro lugar, Bismarck estava alarmado com o desenvolvimento do socialismo e sobressaltou-se ainda mais quando os campeões dessa filosofia, os social-democratas, fizeram aliança com os centristas. Se continuassem a crescer no mesmo ritmo, esses dois partidos não tardariam a constituir maioria no Reichstag. Na esperança de impedir tal resultado, Bismarck relaxou aos poucos a perseguição aos católicos. Entre 1878 e 1886 foi revogada quase toda a odiosa legislação e a Kulturkampf caiu no olvido, como tantos outros erra; de estadistas. A igreja católica foi, assim, praticamente restituída à sua antiga posição na Alemanha.

Diplomacia de Bismarck

No plano diplomático, a consolidação do Segundo Reich passava por uma política de isolamento da França, impedindo o revanchismo e estimulando este país a desenvolver uma política de grandeza fora da Europa, em direção ao mundo colonial (como forma de sublimar o nacionalismo himilhado). Esse conjunto de práticas recebeu o nome de Diplomacia de Bismarck ou Sistemas de Bismarck, tendo sido implementado através de uma hábil política de alianças que perdurou até 1890, com a queda do chanceler. Iniciava-se um período de preponderância alemã na Europa, conduzindo ao progressivo declínio da política de equilíbrio de poderes estabelecida na Pax Britannica.

A evolução do sistema de alianças múltiplas remonta à década de 1870 e seu arquiteto inicial foi Bismarck. Em essência, os objetivos do Chanceler de Ferro eram pacíficos. A Prússia e os seus aliados alemães tinham saído vitoriosos da guerra com a França e o recém-criado império germânico era o estado mais poderoso do Continente. Almejava Bismarck, acima de tudo, preservar os frutos dessa vitória; nada indica que ele estivesse a planejar novas conquistas. Não obstante, perturbava-o o receio de que a França pudesse iniciar uma guerra de desforra. Era pouco provável que tentasse sozinha uma tal coisa, mas podia fazê-lo auxiliada por uma outra potência. Conseqüentemente, Bismarck resolveu isolar a França ligando todos os seus possíveis amigos à Alemanha. Dada a posição central da Alemanha na Europa, Bismarck sabia também que uma guerra em duas frentes (ocidental e oriental) seria extremamente arriscada.

Primeiro sistema bismarckiano (1872-1878)

Neste momento, o grande desafio é evitar que França e Áustria-Hungria se unam contra a Alemanha (ambas foram prejudicadas com a unificação dos alemães).

Articulou-se em 1872 a Liga dos Três Imperadores (ou Entente dos Três Imperadores): Guilherme I da Alemanha, Alexandre II da Rússia e Francisco José da Áustria-Hungria. O pretexto utilizado é de que as monarquias autoritárias deveriam estar unidas contra o perigo que o sistema republicano francês representa. Paralelamente, Bismarck procurava manter boas relações com Londres, mostrando-se como defensor do status quo no continente.

Contudo, não era fácil manter dois Estados rivais sob a mesma aliança e a duração desta Liga foi efêmera devido ao expansionismo austro-húngaro no Balcãs (1875-1878): a Áustria-Hungria anexou a Bósnia-Herzegovina, frustrando o nacionalismo eslavo da Sérvia apoiado, por sua vez, pela Rússia. Assim, o avanço austríaco fez os russos retirarem-se da aliança. Ao mesmo tempo, uma série de revoltas na Bulgária, Sérvia e Montenegro são reprimidas pelo Império Turco-Otomano. A Rússia intervém e os turcos são derrotados (questão do Oriente).

Firma-se a Paz de Santo Estevão em que Sérvia, Montenegro e Romênia conseguem a independência. Propõe-se a criação de uma Grande Bulgária, a qual Inglaterra e Áustria-Hungria opõem-se (com receio que gerasse pleito em outras regiões dos Balcãs). No Congresso de Berlim (1878), Bismarck atua como mediador e a Bulgária tem sua independência reconhecida, porém com perda de territórios. A Rússia não sai satisfeita do encontro.

Ao mesmo tempo, a Áustria-Hungria obtém a administração da Bósnia-Herzegovina, o que motiva a retirada russa da Entente.

Segundo sistema bismarckiano (1879-1886)

Inicia-se com uma Dúplice Aliança secreta entre Alemanha (que deseja penetrar no território turco) e Áustria-Hungria (1879). Concomitantemente, Alemanha e Áustria-Hungria-Hungria estreitam laços com a Rússia.

Renasce a Liga dos Três Imperadores, mas apenas como um acordo de neutralidade (1881) de três anos de neutralidade, em caso de conflito. A questão balcânica não é tratada.

A Itália decide unir-se à Dúplice Aliança, formando a Tríplice Aliança (1882): os italianos tinham motivos para fortalecerem frente à ameaça francesa nos territórios de Savóia, Nice e na Tunísia. No ano seguinte, adere a Romênia recém independente. Essa aliança é planejada sem o conhecimento russo e sobrevive ao fim da Entente dos Três Imperadores (com a Rússia ainda insatisfeita com sua ausência nos Balcãs, enquanto a Áustria-Hungria aumentava sua presença). Seu prazo de duração estipulado é de cinco anos, mas mantém-se até 1915.

Terceiro sistema bismarckiano (1888-1891)

Considerado por alguns como uma continuação do Segundo sistema, devido à manutenção da Tríplice Aliança Alemanha-Áustria-Hungria-Itália com vistas ao isolamento francês. Negociam-se acordos bilaterais e o Tratado secreto de Resseguro com a Rússia (1887). Neste, Alemanha e Rússia acordavam manter-se neutras caso uma delas se envolvesse numa guerra com um terceiro país. A neutralidade não se aplicaria se a Alemanha atacasse a França ou se a Rússia atacasse a Áustria-Hungria-Hungria; em protocolo particularmente secreto, a Alemanha declarou-se neutra caso a Rússia interviesse no Bósforo e nos Dardanelos (reconhecimento, ainda que secreto, dos direitos russos na Bulgária; traição à Áustria-Hungria que só foi revelada posteriormente).

Alemanha inicia aproximação com a Inglaterra (que até então empenhava-se em uma política de isolamento no continente europeu para ganhar mercados fora dele).

Não se impede que a França conquiste colônias fora da Europa, pois existe o entendimento de que enquanto estiver focada em conquistar colônias, não buscará alianças na Europa.

Em 1888, Guilherme II assume como imperador alemão e modifica toda política diplomática, demitindo Bismarck e priorizando o desenvolvimento industrial e financeiro em escala mundial (Weltpolitik, do genreal Caprivi). A partir de 1890, ocorre a aproximação diplomática entre Rússia e França, marcando o fim dos sistemas de Bismarck.

Grandezas e fraquezas da Europa bismarckiana

Pontos Positivos

De um modo geral a Europa bismarckiana (após 1871) significou uma relativa paz no continente, pois as alianças e tensões entre as potências conseguiram ser equilibradas nas mãos do grande diplomata.

Em duas oportunidades Bismarck soube evitar a guerra:  em 1878, na crise entre Áustria-Hungria-Hungria e Rússia após o Tratado de Santo Estêvão e, em 1886, na crise Búlgara.

Pontos Negativos

A mudança de postura após a Unificação Alemã foi pouco compreendida pela população e até pelo rei Guilherme I: antes, o engajamento em prol de um nacionalismo alemão (pangermanismo) com vias expansionistas e, agora, uma acomodação e uma preocupação mais interna com o país, sem o ideário de conquistar todos os territórios onde houvesse povos germânicos.

Bismarck foi incapaz de compreender a força dos nacionalismos na época, pois estava crente que na política do momento e, de uma certa forma, ignorou o patriotismo dos povos vizinhos, como os da Alsácia-Lorena, por exemplo, que se mostravam deveras insatisfeitos com a anexação alemã.

Outro ponto foi a expansão do exército alemão, fator este que motivou uma corrida armamentista generalizada no final do século XIX, pela Rússia (principalmente, pois temia o crescimento da Alemanha) e também por Grã-Bretanha e França.

Conclusões

Ao cabo de pouco mais de uma década de manobras políticas Bismarck lograra realizar as suas ambições. Por volta de 1882 a França estava praticamente impossibilitada de obter o auxílio de amigos poderosos. A Áustria-Hungria e a Itália achavam-se unidas à Alemanha pela Tríplice Aliança e a Rússia, após três anos de ausência, havia retornado ao arraial bismarckiano. O único auxílio possível era o da Inglaterra; mas, com respeito aos assuntos continentais, os ingleses tinham voltado à sua política tradicional de “esplêndido isolamento”. Por conseguinte, no que dizia respeito ao perigo de uma guerra de vingança a Alemanha pouco tinha a temer. Mas, se Bismarck ou qualquer outra pessoa imaginava que tal segurança era permanente, estava-lhe reservada uma triste decepção. Entre 1890 e 1907 a Europa passou por uma revolução diplomática que aniquilou praticamente a obra de Bismarck. É verdade que a Alemanha ainda tinha a Áustria-Hungria ao seu lado, mas perdera a amizade tanto da Rússia como da Itália, ao mesmo tempo que a Inglaterra saíra do seu isolamento para entrar em ajustes com a Rússia e a França. Esse deslocamento do equilíbrio de poderes teve resultados fatídicos. Convenceu os alemães de que estavam rodeados por um anel de inimigos e, portanto, tinham de fazer o que estivesse ao seu alcance para conservar a lealdade da Áustria-Hungria, ainda mesmo que fosse preciso prestar apoio às temerárias aventuras desta no estrangeiro. Seria difícil encontrar melhor ilustração da futilidade de se confiar num sistema de alianças para preservar a paz.

A Alemanha iniciou tardiamente sua expansão colonial. Somente em 1884 se instalou no Togo, em Camarões, no sudoeste (Namíbia) e no oeste africanos (Tanzânia, Burundi e Ruanda), depois em certas ilhas do Pacífico (Nova Guiné Alemã e Samoa Alemã). Para Bismarck o que realmente interessava eram os assuntos europeus.

Fontes bibliográficas:

ARRUDA, José; PILETTI, Nelson. Toda a História. 7ª São Paulo: Ed. Ática, 1997.

BURNS, E. História da civilização ocidental – Volume II. 2ª São Paulo: Ed. Globo, 1964.

VICENTINI, P. História mundial contemporânea (1776-1991). Série Manual do Candidato. 2ª Ed. Brasília: FUNAG, 2010.

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